Existe um fio condutor que liga as estepes da Arábia, os campos da Península Ibérica e as ilhas tropicais do Caribe — e esse fio é genético. A origem do cavalo Paso Fino não começa nas Américas. Começa séculos antes, nos cruzamentos que moldaram os cavalos ibéricos medievais, e chega ao Novo Mundo nas embarcações de Cristóvão Colombo no final do século XV. O que aconteceu depois é uma das histórias mais fascinantes da seleção equina: como uma raça foi forjada pelo isolamento geográfico, pelas necessidades práticas dos colonizadores e por séculos de escolha deliberada.
Entender a origem do Paso Fino é entender por que seu andamento é único no mundo — e por que nenhuma tentativa de reproduzir artificialmente esse andamento em outras raças chegou ao mesmo resultado.
Os ancestrais ibéricos: Jenets, Berberes e Andaluzes
A história começa na Península Ibérica do século VIII, quando a invasão moura trouxe cavalos berberes e árabes que se cruzaram com as populações equinas locais. O resultado foi um conjunto de raças espanholas caracterizadas por dois traços incomuns: beleza mediterrânea e andamento lateral natural.
O mais importante desses ancestrais para o Paso Fino foi a raça hoje extinta chamada Jenet Espanhol (ou Ginete Ibérico). Os Jenets eram cavalos de porte médio, refinados, extremamente ágeis, naturalmente ambladeiros — ou seja, portadores genéticos do andamento lateral de quatro tempos. Durante a Reconquista espanhola e nos séculos seguintes, os Jenets foram usados para a cavalaria leve, para caça e para viagens de longa distância — e a suavidade do seu andamento era celebrada em crônicas medievais.
Além dos Jenets, contribuíram para a formação do Paso Fino:
O Andaluz (ancestral do atual PRE — Pura Raza Española): responsável pela elegância, o pescoço arqueado e a facilidade de coleta.
O Berbere norte-africano: responsável pela resistência, pela eficiência metabólica e por aspectos do andamento.
O Barb árabe: traços de refinamento, velocidade e durabilidade óssea.
Quando Colombo preparou sua segunda viagem ao Novo Mundo em 1493, escolheu cavalos espanhóis — provavelmente Andaluzes e Jenets — para enviar às colônias. Eram os melhores cavalos de guerra e trabalho do mundo ocidental naquele momento. E carregavam, sem que ninguém soubesse ainda, a genética do andamento mais suave que o Novo Mundo jamais conheceria.
A chegada ao Caribe: seleção no isolamento
Os cavalos chegaram à Hispaniola em 1493. De lá, a população equina colonial se expandiu rapidamente para Cuba, Porto Rico, Jamaica e as costas da América do Sul. Em poucos séculos, existiam populações de cavalos em todo o continente americano — desde o Canadá até a Patagônia.
No Caribe, contudo, aconteceu algo diferente do que ocorreu no continente. As ilhas eram geograficamente isoladas — cavalos trazidos para Porto Rico ou Cuba raramente se misturavam com populações de outras regiões. Esse isolamento funcionou como um acelerador de seleção: características que surgiam na população insular eram rapidamente fixadas nas gerações seguintes, sem o diluimento que a mistura com outras linhagens traria.
Os colonizadores espanhóis — administradores, proprietários de engenho, militares — precisavam montar por horas sob o calor tropical. O trote era inimigo da produtividade: exigia do cavaleiro um esforço físico constante para amortecer o impacto, tornando-se extenuante em percursos longos. Os cavalos que naturalmente exibiam o andamento lateral suave eram sistematicamente preferidos para reprodução.
Esse não era um programa de melhoramento genético planejado. Era seleção natural acelerada pela preferência humana — o mecanismo mais antigo de criação de raças. Mas o resultado foi extraordinário: em poucas gerações, a população equina caribenha começou a consolidar o andamento que hoje define a raça.
Porto Rico: o berço moderno do Paso Fino
Embora o desenvolvimento do Paso Fino tenha ocorrido em múltiplos locais simultaneamente, Porto Rico se tornou o epicentro da raça como a conhecemos hoje. A ilha tinha uma concentração de criadores apaixonados, um sistema de competições incipiente e um isolamento geográfico que permitiu a fixação de características únicas.
O sistema de shows porto-riquenho, desenvolvido ao longo do século XX, criou os critérios formais que ainda definem a raça: a avaliação do andamento sobre o tablero (superfície de madeira que amplifica o som dos cascos), os padrões de conformação, os critérios de penalização por andamento irregular ou “caminhar” (trote disfarçado).
O registro formal do Paso Fino em Porto Rico foi estabelecido no século XX, e o studbook porto-riquenho tornou-se referência para os demais países. A Asociación de Criadores de Caballos de Paso Fino de Puerto Rico foi fundada em 1943 — tornando-se uma das organizações equestres mais antigas das Américas.
A Colômbia e o Paso Fino “criollo”
Paralelamente ao desenvolvimento porto-riquenho, a Colômbia desenvolveu sua própria tradição do Paso Fino — com características distintas que alguns estudiosos chegaram a classificar como uma linha separada dentro da mesma raça.
O Paso Fino colombiano tende a ser levemente maior, com mais substância e um andamento um pouco mais extenso — o que os colombianos chamam de paso fino criollo ou simplesmente criollo fino. Os cavaleiros colombianos valorizam a força e a resistência para trabalho em campo — não apenas a fineza do andamento de exibição.
A Colômbia desenvolveu sua própria organização de registro — a Federación Colombiana de Asociaciones Equinas (FEDEQUINAS) — e seu próprio circuito de competições. Os cavalos colombianos são frequentemente maiores e mais encorpados que os porto-riquenhos, e os shows colombianos avaliam o andamento em terreno natural, não no tablero.
Essa diversidade dentro da raça é, ao mesmo tempo, riqueza e complicação: cavaleiros e criadores dos dois países têm opiniões firmes sobre qual “tipo” de Paso Fino é o ideal.
A chegada aos Estados Unidos e a expansão global
A expansão norte-americana do Paso Fino começou nos anos 1960, quando soldados americanos estacionados em Porto Rico entraram em contato com a raça e ficaram impressionados. Cavalos foram importados, o interesse cresceu e, em 1972, foi fundada a Paso Fino Horse Association (PFHA) — hoje United States Paso Fino Horse Association (USPFHA).
A organização americana criou o sistema de shows mais estruturado do mundo para a raça, com dezenas de eventos anuais em todo o país, classes por idade e nível, e critérios de julgamento unificados. O registro americano aceita cavalos porto-riquenhos e colombianos, criando um studbook integrado que hoje conta com dezenas de milhares de animais.
Da América do Norte, a raça seguiu para a Europa — especialmente Alemanha, Países Baixos e Espanha — onde o interesse pelo dressage clássico e pela equitação de conforto criou demanda por raças de andamento. O Paso Fino chegou ao Brasil em menor escala, mas com criadores dedicados especialmente no Sul e em São Paulo.
A origem do cavalo Paso Fino em cada país de chegada é a mesma história com novas páginas: uma raça que sobreviveu à colonização, ao isolamento, ao esquecimento parcial e à modernidade — e chegou ao século XXI mais relevante do que nunca.