Há momentos na equitação que mudam tudo. Para muitos cavaleiros, o primeiro contato com a marcha do Mangalarga Marchador é exatamente esse tipo de momento. Uma coisa é ler sobre um andamento suave. Outra é sentir — pela primeira vez — um cavalo se mover sob você sem que nenhum impacto chegue à sua coluna.

A marcha é a razão de ser da raça. É o que distingue o Mangalarga Marchador de centenas de outras raças equinas ao redor do mundo. E é, para quem a experimenta de verdade, uma das experiências mais surpreendentes que a equitação pode oferecer.

O que é exatamente um andamento marchador?

Para entender por que a marcha é especial, é útil ter clareza sobre como os cavalos se movem.

A maioria dos cavalos tem quatro andamentos naturais: passo, trote, galope e, em algumas raças, um andamento lateral ou amblado. No passo — o mais lento — o cavalo move cada pata individualmente, num padrão de quatro tempos. No trote, os membros se movem em pares diagonais, criando o impacto característico que faz o cavaleiro “bater” se não souber postar.

O andamento marchador fica entre o passo e o trote em velocidade, mas é fundamentalmente diferente de ambos em mecânica. É um andamento de quatro tempos em que o cavalo nunca fica sem pelo menos dois apoios simultâneos no solo. Essa continuidade de contato elimina a fase de suspensão que existe no trote — e com ela, elimina o impacto.

Para o cavaleiro, o resultado é uma experiência de deslocamento sem turbulência. Para o cavalo, é um andamento energeticamente eficiente que permite percorrer longas distâncias sem acúmulo rápido de fadiga.

Como se reconhece uma boa marcha?

Observar a marcha de um Mangalarga vai além de contar o número de batidas no chão. Há uma série de critérios que juízes de exposição e criadores experientes avaliam com precisão:

Equilíbrio e regularidade: o ritmo deve ser constante, sem acelerações ou desacelerações abruptas. O cavalo bem marchado mantém o mesmo compasso independentemente do terreno.

Impulsão e cadência: a marcha deve ter energia. Um animal que arrasta os pés, por mais que não toque claramente em dois tempos, não está marchando bem. A qualidade do andamento se vê na potência que vem da quartelagem (posterior) e na extensão com que os membros anteriores avançam.

Postura e coleção: o cavalo em boa marcha engaja o posterior, eleva levemente o anterior e carrega o peso de forma equilibrada. Isso cria a impressão de um animal “flutuando” — que é exatamente o que os criadores descrevem quando falam de um Mangalarga excepcionalmente marchado.

Ausência de lateral: um defeito comum em cavalos que não estão em plena forma de marcha é a lateralidade excessiva — o balanço de um lado para o outro que, em excesso, compromete o conforto do cavaleiro e aponta para um andamento irregular.

Marcha batida e marcha picada: dois sabores do mesmo andamento

O Mangalarga Marchador reconhece oficialmente duas variações da marcha, cada uma com características sonoras e mecânicas distintas:

Marcha batida: os membros do mesmo lado tocam o chão quase simultaneamente — primeiro o posterior, depois o anterior. O som resultante é um “tic-tic… tic-tic” mais marcado, com batimentos próximos. A sensação para o cavaleiro é de maior compacidade e potência — um andamento que parece “trabalhar mais” no mesmo tempo. É frequentemente descrita como mais energética.

Marcha picada: os membros movem-se de forma mais diagonal, com um intervalo mais claro entre o posterior e o anterior do mesmo lado. O som é mais espaçado e regular, aproximando-se de uma sequência cadenciada de quatro tempos bem separados. O balanço lateral é ligeiramente mais pronunciado, e a sensação para o cavaleiro costuma ser descrita como mais relaxante ou “flutuante”.

Ambas são aceitas no padrão oficial da ABCCMM e julgadas em provas separadas. Criadores frequentemente se especializam em uma ou outra, e cavaleiros desenvolvem preferências claras depois de algum tempo na raça.

Em regiões do centro-oeste e nordeste do Brasil, a marcha batida tende a ser mais valorizada. No sul e sudeste, há maior diversidade de preferências. No cenário internacional, a picada costuma atrair mais atenção de cavaleiros vindos de outras tradições, talvez pela sensação que mais se aproxima do que imaginavam antes de experimentar.

Como se desenvolve a marcha em um potro?

Um potro Mangalarga Marchador nasce com o potencial genético para marchar — mas esse potencial precisa ser desenvolvido. A marcha não é algo que o cavalo faz naturalmente desde o início; ela precisa ser estabelecida e refinada por meio de treinamento adequado.

Nos primeiros meses de vida, os potros se movem em andamentos variados. Muitos mostram esboços de marcha espontaneamente no pasto, mas a regularidade vem com o trabalho.

O processo de “marchar” um potro começa tipicamente entre os 2 e 3 anos de idade, quando o animal está fisicamente maduro o suficiente para suportar o peso de um cavaleiro sem comprometer seu desenvolvimento. O trabalho inicial é feito no picadeiro ou em campo plano, com rédeas de marcha (arreios específicos que ajudam a promover o equilíbrio correto), longe, e progressivamente com cavaleiro.

O papel do cavaleiro nesse processo não é trivial. Um jinete com má postura ou mãos grossas pode interferir negativamente na marcha que o cavalo está tentando estabelecer. A leveza das mãos e o equilíbrio da posição são fatores que o cavalo responde diretamente — e um bom professor de marcha precisa dominar tanto o animal quanto o próprio corpo.

Por que a marcha é vantagem no campo e na vida real?

Antes de existirem competições e exposições, a marcha do Mangalarga era um critério de seleção puramente prático. Nas fazendas do interior do Brasil — onde cavalgar dez, quinze ou vinte quilômetros por dia era parte da rotina de trabalho — um cavalo que não cansava o cavaleiro era literalmente mais valioso.

Peões que passavam o dia inteiro no lombo de um Mangalarga chegavam em melhor condição física do que aqueles que montavam cavalos de andamento irregular. Isso não é romantismo: é fisiologia. A ausência de impacto repetitivo protege a coluna vertebral do cavaleiro, reduz a fadiga muscular e permite jornadas mais longas sem comprometer a capacidade de trabalho.

Hoje, esse argumento encontra novos públicos. Cavaleiros com hérnias de disco, problemas de coluna, artrose nos joelhos ou histórico de lesões que os impediram de montar descobrem na marcha uma possibilidade de retorno à equitação. Não como terapia, mas como prática plena — com a diferença de que o andamento não os machuca.

É nesse ponto que a marcha do Mangalarga Marchador cruza fronteiras culturais e técnicas e toca algo universal: a possibilidade de estar no lombo de um cavalo sem pagar um preço físico por isso.

O som da marcha como patrimônio cultural

Há uma forma que os criadores e apreciadores brasileiros têm de identificar um bom Mangalarga sem nem olhar para o animal: escutando. O padrão sonoro da marcha — aquele “tic-tic… tic-tic” cadenciado chegando de longe em uma estrada de chão — é parte da identidade cultural das regiões de criação.

Em Minas Gerais, nas cidades históricas da Zona da Mata e do Campo das Vertentes, as provas de marcha são eventos sociais que reúnem famílias e comunidades há décadas. O som do Mangalarga bem marchado é, para essas pessoas, algo próximo do que a música de câmara é para outras culturas: uma forma de excelência técnica que também toca a emoção.

Preservar a pureza da marcha é, portanto, mais do que uma questão esportiva ou comercial. É uma questão de identidade.