O mundo da equitação tem um segredo que cavaleiros de raças convencionais demoram a descobrir: existe toda uma família de cavalos que simplesmente não trota. Não porque não consiga — mas porque a evolução e a seleção humana produziram um andamento diferente, mais suave, mais eficiente para viagens longas e mais confortável para cavaleiros de todos os níveis. Essas são as chamadas raças de andamento suave — e elas aparecem em todos os continentes, criadas independentemente por culturas que tinham em comum uma necessidade: cavalgar por horas sem sofrer.
Conhecer as raças de andamento suave no mundo é compreender que o Paso Fino e o Mangalarga Marchador não são exceções curiosas no universo equestre. São representantes de uma família ampla, diversa e extraordinariamente útil — cada membro com sua história, seu andamento característico e seus entusiastas apaixonados.
O que torna um cavalo de andamento suave?
Antes de conhecer as raças, vale entender a biologia. O andamento suave de quatro tempos — chamado de ambladura, marcha, paso ou tölt dependendo da região — tem base genética identificada. Pesquisas publicadas no periódico Nature em 2012 identificaram uma mutação no gene DMRT3 que está presente em praticamente todas as raças de andamento suave do mundo, independentemente de terem sido desenvolvidas na Islândia, no Brasil, nas Américas ou no Paquistão.
Isso significa que todas essas raças, por mais distantes geograficamente, compartilham uma mesma herança genética ancestral — provavelmente uma mutação que surgiu uma vez na história equina e se espalhou por linhagens que foram deliberadamente selecionadas pelo conforto do andamento.
O andamento lateral de quatro tempos elimina o momento de suspensão do trote, mantendo sempre dois ou três pés no chão. O resultado é a ausência de impacto vertical para o cavaleiro — a sensação de “flutuar” que cavaleiros descrevem ao montar essas raças pela primeira vez.
Paso Fino: o mais fino de todos
Já amplamente explorado neste cluster, o Paso Fino merece menção especial neste contexto comparativo: seu andamento de exibição (paso fino puro) é considerado o mais refinado entre todas as raças de andamento do mundo. A rapidez e brevidade dos passos, avaliadas no tablero de madeira dos shows, não têm equivalente em nenhuma outra raça.
Origem: Caribe colonial (Porto Rico, Colômbia, República Dominicana) Andamento: Paso fino, paso corto, paso largo Característica marcante: Suavidade máxima de exibição, fineza visual incomparável Distribuição global: Américas, Europa, crescente presença no Brasil
Mangalarga Marchador: resistência brasileira
O representante brasileiro mais numeroso das raças de andamento — com mais de 600 mil animais registrados, é a segunda raça equina mais numerosa do Brasil. Sua marcha (batida ou picada) foi forjada para o trabalho nos campos de Minas Gerais e testada em provas de resistência de centenas de quilômetros.
Origem: Brasil (Minas Gerais, século XIX) Andamento: Marcha batida, marcha picada Característica marcante: Resistência excepcional, versatilidade campo/show/trilha Distribuição global: Majoritariamente Brasil, crescente presença nos EUA
Icelandic Horse: o cavalo de cinco andamentos
O Cavalo Islandês é a única raça do mundo com cinco andamentos reconhecidos — incluindo o famoso tölt, que é precisamente o andamento lateral de quatro tempos. O que torna o Islandês único é o flying pace — uma variação de alta velocidade do andamento lateral que pode alcançar 45 km/h, usado em corridas formais.
Origem: Islândia (trazido pelos Vikings no século IX) Andamentos: Paso (caminhada), trote, galope, tölt, flying pace Característica marcante: Único com cinco andamentos; flying pace de alta velocidade Distribuição global: Escandinávia, Europa, Américas, crescente no mundo todo Curiosidade: A lei islandesa proíbe a importação de cavalos para a Islândia e a reexportação de cavalos que deixaram o país — o que mantém a raça geneticamente isolada há mais de mil anos.
Tennessee Walking Horse: o show americano
O Tennessee Walking Horse é a raça de andamento suave mais popular dos Estados Unidos — e uma das mais controvertidas. Desenvolvida no estado do Tennessee no século XIX para fazendeiros do Sul que precisavam inspecionar plantações a cavalo, a raça é conhecida pelo running walk — um andamento de quatro tempos com característica head nod (balanço de cabeça sincronizado) e overtrack excepcional (o pé traseiro ultrapassa amplamente o rastro do pé dianteiro).
Origem: Tennessee, EUA (século XIX) Andamento: Flat walk, running walk, rocking chair canter Característica marcante: Overtrack extenso, head nod característico, shows altamente produtivos Distribuição global: Majoritariamente EUA Controvérsia: A prática de “soring” — estimulação química dos cascos para exagerar o andamento de show — é problema histórico da raça, combatido por legislação e grupos de bem-estar animal.
Peruvian Paso: o irmão peruano do Paso Fino
O Cavalo Peruano de Paso (ou Peruvian Paso) é frequentemente confundido com o Paso Fino — compartilham origem ibérica e nome, mas são raças distintas com andamentos diferentes. O Peruviano exibe o termino — um movimento de extensão lateral das mãos para fora durante o andamento que não existe no Paso Fino — e o andamento tem maior amplitude de passada.
Origem: Peru (séculos XVII–XVIII) Andamento: Paso llano (andamento suave), sobreandando (variação de alta velocidade) Característica marcante: Termino exclusivo, força e presença imponente Distribuição global: Peru, Chile, EUA, presença crescente na Europa Reconhecimento cultural: O Caballo Peruano de Paso é Patrimônio Cultural da Nação peruana — a única raça equina no mundo com esse status em seu país de origem.
Campolina: a raça gigante do Brasil
O Campolina é a maior raça de andamento do mundo — com média de 162 cm ou mais — e também uma das mais belas. Desenvolvido em Minas Gerais no final do século XIX pelo fazendeiro Cassiano Campolina, a raça é conhecida pelo porte monumental, o perfil subconvexo (levemente arqueado) e a marcha singular chamada de marcha verdadeira — variação específica reconhecida pela Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Campolina.
Origem: Brasil (Minas Gerais, final do século XIX) Andamento: Marcha verdadeira Característica marcante: Maior raça de andamento do mundo, conformação monumental Distribuição global: Majoritariamente Brasil
Missouri Fox Trotter: o andamento diagonal que surpreende
O Missouri Fox Trotter é tecnicamente diferente das demais raças desta lista: seu andamento característico, o fox trot, é lateral na frente e diagonal atrás — produzindo um andamento de quatro tempos com características biomecânicas únicas. É mais suave que o trote convencional mas diferente do andamento lateral puro.
Origem: Ozarks, Missouri, EUA (século XIX) Andamento: Flat walk, fox trot, rocking chair lope Característica marcante: Andamento híbrido lateral-diagonal, resistência excepcional Distribuição global: Principalmente EUA, crescente interesse internacional
O que une todas essas raças?
Apesar das origens geográficas distintas, essas raças compartilham mais do que o gene DMRT3. Compartilham uma história de seleção para a mesma função: carregar um ser humano por longas distâncias com o máximo de conforto. Das plantações americanas aos campos brasileiros, das pampas peruanas às montanhas islandesas — o problema era o mesmo, e a solução foi sempre o andamento suave.
Para o cavaleiro moderno que busca conforto, eficiência e a experiência singular de flutuar sobre um cavalo em movimento, qualquer uma dessas raças pode ser a porta de entrada para um universo equestre completamente diferente do convencional.