O cavalo na Semana Farroupilha não é apenas uma presença decorativa. É uma afirmação de identidade. Quando os cavaleiros passam pelas ruas de Porto Alegre no desfile do dia 20 de setembro, com pilchas impecáveis e montarias arreadas com orgulho, eles repetem um gesto que seus antepassados já faziam nas batalhas da Revolução Farroupilha, duzentos anos antes. O cavalo foi companheiro de revolução, de lida, de festa e de silêncio. E na Semana Farroupilha, mais do que em qualquer outro momento do calendário gaúcho, essa parceria ocupa o centro do palco.

Mas para entender o que o cavalo representa nessa semana de 20 de setembro, é preciso ir um pouco mais fundo — na história, na tradição e no vínculo quase inexplicável entre o gaúcho e o animal que o acompanha há séculos.

O que é a Semana Farroupilha — e por que o cavalo está no seu centro?

A Semana Farroupilha é o período de celebração anual da cultura gaúcha no Rio Grande do Sul, que tem seu ponto alto no dia 20 de setembro — data que marca o início da Revolução Farroupilha, em 1835. Foi a partir dessa data que os farrapos, como eram chamados os revolucionários, iniciaram um dos movimentos mais longos da história do Brasil: dez anos de combates pela autonomia do Sul contra o poder centralizado do Império.

A Assembleia Legislativa gaúcha transformou o 20 de Setembro em feriado estadual em 1996, mas a tradição de celebrar essa data já vinha de muito antes. Em 1947, um grupo de estudantes do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, liderado por João Carlos Paixão Cortes, fundou o Departamento Tradicionalista e começou a organizar encontros para preservar a cultura riograndense. O 20 de Setembro foi escolhido como a data máxima dessa celebração — o dia em que Porto Alegre caiu nas mãos dos farrapos e a revolução ganhou corpo.

E o cavalo? Estava lá desde o início. As celebrações que surgiram naquele contexto — os desfiles, as tropeadas, as demonstrações a cavalo — nasceram diretamente da memória de um povo que construiu sua identidade no campo, com o cavalo do lado.

A Ronda Crioula: o fogo que reúne gaúchos e cavalos

Um dos símbolos mais marcantes das comemorações farroupilhas em Porto Alegre é a Ronda Crioula — a grande concentração de CTGs, piquetes e cavaleiros que se instala no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho durante toda a semana.

O nome tem raiz na campanha: quando os tropeiros gaúchos precisavam acalmar o gado durante a noite, ficavam ao redor dos animais — rodeando-os — cantando baixinho, assobiando, tocando violão. Um fogo era aceso a certa distância, e os homens se revezavam na ronda, mantendo o rebanho tranquilo. Dali veio o nome.

Hoje, a Ronda Crioula em Porto Alegre reúne mais de 400 barracas e galpões de madeira. É um espaço onde convivem churrasco, chimarrão, poesia gaúcha, dança, artesanato e, claro, cavalos — arreados, exibidos, tocados com cuidado pelos seus donos. Para o visitante de fora, pode parecer uma festa. Para o gaúcho, é algo mais: é a afirmação viva de que aquela cultura não morreu, não foi engolida pela urbanização e não se perdeu no tempo.

O cavalo presente na Ronda Crioula não está ali por acaso ou por ornamentação. Ele está ali porque faz parte da memória de quem criou aquele espaço.

Por que o cavalo foi fundamental na Revolução Farroupilha?

Para entender o papel do cavalo na Semana Farroupilha, é preciso olhar para o que aconteceu entre 1835 e 1845 nos campos do Sul.

A Revolução Farroupilha reuniu mais de 20 mil homens e mulheres em combates sucessivos que resultaram na morte de cerca de 3.500 revolucionários. Em um conflito de dez anos, travado em campos abertos, rios e serras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a mobilidade era uma questão de sobrevivência. E mobilidade, no século XIX, significava cavalo.

Os farrapos combateram a cavalo. Comunicavam ordens a cavalo. Recuavam e avançavam a cavalo. As tropas federais do Império também montavam — mas os gaúchos tinham uma vantagem que ia além da qualidade dos animais: eles conheciam o território e sabiam montar desde crianças. O cavalo gaúcho era um parceiro de guerra, treinado para aguentar terrenos difíceis, cruzar rios e permanecer útil em longas campanhas sem as estruturas de apoio que os imperiais tinham.

Líderes como Bento Gonçalves, David Canabarro e Giuseppe Garibaldi comandaram suas forças a cavalo. Anita Garibaldi — uma das figuras mais celebradas da revolução — tornou-se símbolo de coragem justamente pela forma como montava e liderava no campo de batalha. O cavalo não era um detalhe da revolução: era parte da estratégia, da identidade e do espírito dos que combatiam.

Quando os gaúchos desfilam hoje no 20 de Setembro com suas montarias, eles não estão apenas celebrando uma data. Estão reencanando, de forma simbólica, a presença daquele animal nas batalhas que deram ao Rio Grande do Sul o caráter que o gaúcho carrega até hoje.

O desfile a cavalo: tradição viva que une gerações

Um dos momentos mais esperados da Semana Farroupilha é o desfile de encerramento — quando cavaleiros vindos de toda parte do Rio Grande do Sul, vestidos com pilchas tradicionais e montados em animais arreados com capricho, percorrem as ruas da cidade.

Para muitos gaúchos, participar desse desfile é um rito de passagem. Crianças que ainda não têm equilíbrio para montar sozinhas vão à garupa do pai ou da mãe. Jovens que estão aprendendo a montar fazem questão de estar lá, mesmo que a montaria não seja perfeita. Veteranos que cavalham há décadas repetem o percurso com a mesma emoção de sempre.

O cavalo escolhido para o desfile quase sempre passa por uma preparação cuidadosa: pelagem limpa, crina trançada ou penteada, arreio bem conservado e polido. Há um orgulho explícito nessa apresentação. O animal que representa o gaúcho precisa estar à altura da ocasião.

Que raças aparecem no desfile farroupilha?

A raça mais presente nos desfiles farroupilhas, sem surpresa, é o Cavalo Crioulo — a raça que nasceu da mesma mistura de culturas que formou o gaúcho, adaptada às condições do Sul. Mas não é a única.

Cavalos de outras raças também marcam presença: Quarto de Milha, Mangalarga Marchador e até mestiços sem pedigree têm lugar garantido no desfile, desde que seus cavaleiros tenham o espírito certo. O que une todos eles não é o registro ou o sangue — é a relação com o cavaleiro.

O desfile não é uma competição de raças. É uma demonstração de pertencimento.

Como os CTGs celebram o cavalo durante a Semana Farroupilha?

Os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) são a espinha dorsal das celebrações farroupilhas em todo o Rio Grande do Sul. Cada CTG organiza seus próprios eventos durante a semana, e os cavalos têm papel central em boa parte deles.

Entre as atividades mais comuns:

  • Gineteadas e rodeios — provas de habilidade a cavalo que reúnem cavaleiros de toda a região
  • Apresentações de cavaleiros pilchados — demonstrações de equitação tradicional gaúcha
  • Leilões de cavalos — especialmente de animais crioulos com pedigree, aproveitando o movimento do período
  • Cavalgadas — percursos coletivos a cavalo que cruzam estradas, campos e vilas

Nas regiões da Campanha Gaúcha, da Serra e do Vale dos Sinos, é comum que as cavalgadas farroupilhas atravessem municípios inteiros, reunindo centenas de cavaleiros durante vários dias. Algumas partem de cidades distantes e chegam a Porto Alegre na véspera do 20 de Setembro, encerrando o percurso no desfile oficial.

São cavaleiros que passam horas na estrada, dormem ao relento e chegam ao destino com poeira, cansaço e um sorriso largo. É o tipo de experiência que se repete porque cria laços — entre as pessoas e entre elas e seus cavalos.

O cavalo gaúcho hoje: tradição que não para de viver

Muito se fala sobre o risco de que as tradições se percam com o tempo, especialmente em um estado cada vez mais urbanizado. O Rio Grande do Sul de 2025 é um estado de cidades, de tecnologia, de jovens que cresceram longe do campo.

Mas a Semana Farroupilha conta uma história diferente.

Ano após ano, o número de participantes nas cavalgadas cresce. Jovens que nunca tinham montado antes entram em contato com cavalos através dos CTGs. Crianças criadas em apartamentos pedem aos pais para visitar a Ronda Crioula e tocar nos animais. O cavalo na Semana Farroupilha funciona como um elo — entre passado e presente, entre campo e cidade, entre quem viveu aquilo e quem está descobrindo.

Essa vitalidade não é nostalgia. É uma escolha consciente de manter viva uma relação que define o que significa ser gaúcho: a relação com a terra, com os animais e com uma história que foi construída a cavalo.