Existem cavalos famosos. E depois existem os cavalos Budweiser — os Clydesdales que se tornaram mais conhecidos do que a maioria dos atores de Hollywood e que são aguardados a cada Super Bowl com a mesma ansiedade que os filmes mais esperados do ano. Em mais de noventa anos de história, esses animais transformaram uma raça escocesa quase esquecida em símbolo global, e uma marca de cerveja em ícone cultural.
A história dos Clydesdales Budweiser é, ao mesmo tempo, a história de uma jogada de marketing genial, de um vínculo humano-animal improvável e de um legado que ultrapassa em muito qualquer campanha publicitária.
O começo: um presente e o fim da Lei Seca
Tudo começou em 7 de abril de 1933. Naquele dia, a Lei Seca americana — o período de proibição do álcool que durou de 1920 a 1933 — chegou ao fim. As cervejarias voltavam a operar legalmente depois de mais de uma década.
August Anheuser Busch Sr., fundador da Anheuser-Busch, recebeu naquele dia um presente inesperado de seus filhos August Jr. e Adolphus: uma parelha de seis cavalos Clydesdale e uma carroça cerimonial, para celebrar o retorno da produção de cerveja. A ideia era que os Clydesdales puxassem a primeira entrega de Budweiser pós-Lei Seca pelas ruas de St. Louis.
O gesto foi pensado como celebração familiar. O que ninguém previu foi que aquela imagem — os gigantes de crinas ao vento puxando a carroça vermelha e dourada da Budweiser — capturaria a imaginação popular de uma forma que nenhuma campanha planejada conseguiria replicar.
O crescimento do programa Budweiser Clydesdale
O sucesso da apresentação de 1933 foi imediato. Em poucos meses, a Anheuser-Busch expandiu o conceito: mais parelhas, mais carroças, turnês por cidades americanas. Os Clydesdales viraram embaixadores da marca em carne e pelo.
Hoje, o programa de Clydesdales da Budweiser é um dos maiores e mais estruturados do mundo. A empresa mantém:
- Mais de 250 Clydesdales em propriedades espalhadas pelos Estados Unidos
- Três parelhas viajantes oficiais que percorrem o país em eventos, feiras e aparições especiais
- Uma fazenda principal em Warm Springs, Missouri — o lar central do programa, aberta ao público para visitação
- Critérios rigorosíssimos de seleção para os animais que entram no time
Os critérios para ser um Budweiser Clydesdale
Nem todo Clydesdale chega a integrar o time da Budweiser. Os critérios de seleção são conhecidos e extremamente específicos:
Sexo — machos castrados são os preferidos para as parelhas viajantes, pela consistência de temperamento.
Cor — baio com marcações brancas nas patas e na face, e crinas (crina e cauda) negras. O feathering deve ser branco e abundante. Essa combinação de cores foi escolhida por criar máximo contraste visual e impacto fotográfico.
Altura — mínimo de 18 palmos (183 cm). Animais abaixo disso, por mais belos que sejam, não atendem ao padrão visual da parelha.
Peso — entre 860 e 1.000 kg.
Estrela branca na testa — obrigatória.
Temperamento — avaliado rigorosamente. Os Clydesdales Budweiser precisam tolerar multidões, barulhos intensos, holofotes e situações imprevistas sem perder a compostura. O treinamento para isso leva meses.
Idade de entrada — geralmente entre 3 e 5 anos. Animais mais jovens ainda não têm maturidade física e emocional; mais velhos exigem retreinamento mais longo.
O Super Bowl e os comerciais inesquecíveis
A associação dos Clydesdales Budweiser com o Super Bowl é um capítulo à parte na história da publicidade mundial. Desde 1986, os comerciais da Budweiser com Clydesdales durante o Super Bowl tornaram-se um evento dentro do evento — aguardados, discutidos e premiados.
Alguns dos momentos mais memoráveis:
1986 — a primeira aparição dos Clydesdales no Super Bowl estabelece o formato: parelha imponente, americana rural, emoção simples e eficaz.
1995 — “Frogs” apresenta sapos que coaxam “Bud-Wei-Ser”, mas os Clydesdales aparecem em sequência e roubam a cena mesmo sem ser o foco principal.
2002 — talvez o comercial mais emocionante da história da Budweiser. Em homenagem às vítimas do 11 de setembro, os Clydesdales percorrem o horizonte de Nova York e se ajoelham diante da skyline da cidade. Sem palavra dita. Sem produto mostrado. Só os cavalos e a dor coletiva de um país. Foi ao ar uma única vez, no Super Bowl de 2002, e nunca foi reapresentado — tornando-se lenda.
2013 — “Brotherhood”, onde um criador acompanha o crescimento de um potro Clydesdale e o reencontra anos depois durante um desfile. Gerou mais de 16 milhões de visualizações online em 24 horas, recorde na época.
2023 — o retorno dos Clydesdales ao Super Bowl após uma ausência foi tratado quase como notícia. O comercial gerou cobertura espontânea da mídia antes mesmo de ir ao ar.
O impacto na raça Clydesdale
O programa Budweiser teve um efeito colateral que seus criadores provavelmente não previram: salvou a raça.
Na década de 1970, o Clydesdale estava em sério risco de extinção. A mecanização agrícola havia eliminado a necessidade prática que justificava criar esses animais enormes e caros de manter. As populações despencaram.
Os comerciais da Budweiser, especialmente a partir dos anos 1980, mantiveram o Clydesdale visível para o grande público em uma época em que pouquíssimas pessoas tinham contato real com a raça. Isso criou demanda — turistas que visitavam a fazenda de Missouri, famílias que queriam ver os cavalos em eventos, criadores que encontravam compradores motivados pela admiração gerada pelas campanhas.
Não é exagero dizer que os Clydesdales Budweiser foram, durante décadas, o principal instrumento de marketing de toda a raça Clydesdale — algo que nenhuma associação de criadores teria condição de financiar.
Os Clydesdales além da Budweiser
O sucesso do programa Budweiser inspirou outros usos dos Clydesdales em cultura popular e publicidade. A raça aparece em filmes, séries, comerciais de outras marcas e eventos equestres ao redor do mundo com frequência muito maior do que sua raridade numérica justificaria.
Em países como Austrália, Nova Zelândia e Canadá, onde a raça tem tradição histórica mais profunda, os Clydesdales aparecem regularmente em feiras rurais, desfiles nacionais e eventos culturais como símbolos de herança e identidade.
O legado dos Clydesdales Budweiser é, em última análise, o legado de uma raça que quase sumiu e foi redescoberta — não por necessidade prática, mas por beleza, emoção e o poder de uma boa história bem contada.
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