Havia um consenso não escrito no mundo do adestramento antes de 2009: pontuar acima de 85% em um teste de Grand Prix Special seria extraordinário. Acima de 90%, simplesmente impossível — uma fronteira teórica que os manuais nem mencionavam porque não havia por que fazê-lo. Então Totilas entrou na arena.

O garanhão preto nascido nos Países Baixos em 2000 não apenas ultrapassou esse número. Ele o tornou insuficiente para descrever o que estava acontecendo nas pistas de adestramento de alto rendimento. Com o cavaleiro Edward Gal, Totilas produziu sequências de movimentos que reescreveram a régua com que o esporte media a excelência — e transformou o adestramento em um fenômeno capaz de atrair audiências que nunca haviam assistido a uma competição equestre na vida.

Quem foi Totilas e como ele chegou ao topo?

Totilas era um KWPN — sigla para o registro holandês de cavalos de sangue quente. Nascido em 30 de abril de 2000, ele foi criado pelo haras Gestut Mühlenbach, na Alemanha, e adquirido ainda jovem pelos holandeses Tosca e Cees Pollmann-Schweckhorst.

O encontro com Edward Gal, um dos cavaleiros de adestramento mais tecnicamente precisos de sua geração, aconteceu quando Totilas ainda estava em formação. O que Gal identificou não foi apenas um cavalo fisicamente excepcional — foi um animal com uma disposição para o trabalho coletivo incomum: Totilas respondia às aids com uma sensibilidade que tornava a comunicação entre cavaleiro e cavalo quase invisível ao espectador.

Essa invisibilidade — quando a audiência não consegue identificar o que o cavaleiro está pedindo porque a resposta do cavalo parece espontânea — é o ideal supremo do adestramento. Totilas a atingiu mais consistentemente do que qualquer cavalo havia feito antes.

Os números que ninguém havia feito antes

Em 2009 e 2010, Totilas quebrou os três recordes mundiais do Grand Prix de adestramento: Grand Prix, Grand Prix Special e Freestyle. Cada um desses recordes havia resistido por anos antes de Totilas se apresentar para quebrá-los todos no mesmo período.

No Grand Prix Special do Campeonato Europeu de Windsor, em 2009, ele marcou 89,4% — superando o recorde anterior por uma margem que os juízes raramente veem em uma única competição. Na Freestyle do mesmo campeonato, alcançou 90,75% — a primeira vez que qualquer cavalo ultrapassou 90% em uma prova oficial de Grand Prix.

No Campeonato Mundial de Hipismo de 2010, realizado em Lexington, Kentucky, Totilas conquistou três medalhas de ouro individuais — no Grand Prix, Grand Prix Special e Grand Prix Freestyle — além do ouro na prova por equipes, somando quatro ouros em um único campeonato. Uma marca que nenhum outro cavalo de adestramento havia atingido e que permanece sem equivalente na história recente do esporte.

Por que as pontuações de Totilas eram tão altas?

O sistema de pontuação do adestramento avalia cada movimento em uma escala de 0 a 10. Os movimentos são avaliados por critérios como impulsão, ritmo, elasticidade, submissão e contato. Totilas apresentava o que os juízes chamam de “schwung” — um termo alemão que descreve a transmissão de energia dos posteriores para os anteriores passando pelo dorso em uma onda fluida — em um grau raramente visto.

Além disso, os movimentos de piaffe e passage — os dois exercícios mais exigentes do adestramento — eram executados por Totilas com uma elevação de joelhos e uma regularidade de ritmo que os juízes comparavam à perfeição técnica dos manuais clássicos. Não havia quebra visível de ritmo, não havia tensão muscular detectável, não havia resistência. Apenas movimento.

A venda que dividiu o mundo equestre

Em novembro de 2010, poucas semanas após o Campeonato Mundial de Kentucky, Totilas foi vendido a um consórcio alemão liderado por Paul Schockemöhle por um valor que nunca foi oficialmente confirmado, mas que fontes do setor estimam entre 10 e 15 milhões de euros — o que o tornaria o cavalo de adestramento mais caro da história.

A venda foi mais do que uma transação comercial: foi um terremoto no mundo do hipismo europeu. Totilas, que havia sido o símbolo do adestramento holandês, passaria a competir pela Alemanha. Edward Gal, seu parceiro de pista, ficaria para trás — a ligação específica entre cavaleiro e cavalo, construída ao longo de anos de trabalho silencioso, seria interrompida.

O que aconteceu com Totilas depois da venda?

A pergunta que o mundo do adestramento passou os anos seguintes tentando responder é simples e cruel: por que Totilas nunca mais foi o mesmo?

Com o novo cavaleiro, Matthias Rath, Totilas competiu com resultados competentes — mas não com a transcendência dos anos com Gal. As pontuações eram altas, mas não históricas. Os movimentos eram bons, mas não extraordinários. A relação visível entre os dois, para os olhos acostumados ao que havia sido, não parecia a mesma.

Lesões complicaram ainda mais a trajetória. Totilas passou períodos fora das competições por problemas físicos que os tratadores e veterinários trabalharam para resolver com recursos de alto nível. Quando voltava à arena, havia momentos de brilho — mas o fio que havia existido entre ele e Gal parecia impossível de recriar com outro cavaleiro.

Isso levantou uma questão que o esporte ainda debate: Totilas era extraordinário por ser Totilas — ou por ser Totilas com Gal?

O legado técnico: o que Totilas mudou no adestramento

Independentemente do debate sobre o que aconteceu após a venda, o impacto técnico de Totilas no adestramento é inegável e permanente.

Redefinição dos padrões de pontuação: Antes de Totilas, as fichas de pontuação raramente registravam 10s em movimentos como piaffe e passage em provas de Grand Prix. Depois dele, os juízes passaram a ter um referencial concreto do que esses 10s deveriam parecer — o que elevou o nível de exigência em todo o sistema de avaliação.

Popularização do esporte: Os vídeos de Totilas, compartilhados amplamente online, introduziram o adestramento a audiências que nunca haviam assistido à modalidade. A combinação de música (especialmente na Freestyle, onde cada cavaleiro escolhe sua própria trilha sonora) com movimentos de precisão extraordinária criou um produto que ultrapassou as fronteiras tradicionais do esporte equestre.

Debate sobre limites biomecânicos: Alguns especialistas questionaram se os ângulos de flexão dos pés anteriores de Totilas eram sustentáveis a longo prazo sem risco de lesão. Esse debate, ainda que controverso, forçou a comunidade equestre a discutir mais abertamente a saúde articular dos cavalos de alto rendimento e levou a mudanças sutis nos critérios de avaliação de movimentos excessivamente artificiais.

Totilas morreu em 2020 — mas sua influência permanece

Em dezembro de 2020, Totilas morreu com 20 anos em decorrência de complicações de saúde. O mundo do adestramento lamentou com a intensidade reservada para os maiores — não apenas porque ele havia sido o melhor, mas porque havia mostrado ao esporte o que “melhor” podia significar.

Seus descendentes já começam a aparecer nas pistas de adestramento jovem. Mas a herança mais duradoura de Totilas não é genética — é a régua que ele elevou. Todo cavaleiro que hoje aspira a um 10 em piaffe sabe, consciente ou não, que aquela nota tem um referencial concreto: a memória de um garanhão preto que um dia entrou em uma arena e mostrou que os limites do impossível podiam ser movidos.