Existe um momento que quem viu jamais esquece: dezenas de cavalos cruzando uma planície com o horizonte de Nevada ao fundo, sem rédea, sem ferradura, sem destino definido. O Mustang americano não é apenas um animal — é uma imagem que o mundo todo reconhece como sinônimo de liberdade. Mas por trás dessa imagem existe uma história muito mais complexa, antiga e polêmica do que os cartazes de turismo sugerem.

Os Mustangs descendem dos cavalos trazidos pelos espanhóis ao continente americano no século XVI. O nome vem do espanhol mestengo ou mostrenco — que designava animais sem dono. Durante séculos, esses cavalos se espalharam pelo oeste do continente, foram capturados por povos indígenas, soltos por colonizadores, misturados com raças europeias e temperados por paisagens que não perdoam os fracos. O resultado é um cavalo com uma resiliência fora do comum.

De onde vieram os Mustangs?

Os cavalos desapareceram da América do Norte há cerca de 10.000 anos, provavelmente devido a mudanças climáticas e à pressão de caça. Quando Hernán Cortés e outros conquistadores espanhóis chegaram ao continente no século XVI, trouxeram cavalos andaluzes, árabes e berberes — animais criados para resistência e velocidade. Alguns escaparam, outros foram soltos, e ao longo de gerações foram se adaptando à geografia selvagem do continente.

Os povos indígenas das Grandes Planícies — Comanche, Lakota, Cheyenne, entre outros — rapidamente reconheceram no cavalo um aliado transformador. Em menos de um século, a cultura equestre tornou-se central para sociedades que até então não conheciam esses animais. Cavalos capturados de manadas ferais, treinados e repassados entre grupos, formaram a base de toda uma economia e modo de vida.

Qual é a relação entre os Mustangs e os povos indígenas americanos?

A resposta vai muito além do uso prático. Para muitas nações indígenas, o cavalo passou a ter significado espiritual, cerimonial e identitário. O Comanche tornou-se reconhecido como o povo dos cavalos — os melhores cavaleiros das Américas, capazes de atirar com precisão em pleno galope. Essa transformação aconteceu em velocidade surpreendente: em cerca de 80 anos após o contato com os primeiros cavalos, certas tribos já possuíam milhares de animais.

A era dourada e o declínio

No século XIX, estima-se que existiam entre 2 e 5 milhões de Mustangs no oeste americano. A expansão da pecuária e a colonização do continente mudaram radicalmente esse cenário. Ranchos exigiam pastagens, e os cavalos ferais eram vistos como concorrentes do gado. O abate sistemático — por vezes organizado em escala industrial — reduziu as populações a menos de 20.000 animais no início do século XX.

A virada veio com Velma Bronn Johnston, conhecida como “Wild Horse Annie”, uma ativista do Nevada que nos anos 1950 liderou uma campanha nacional para proibir o abate aéreo de cavalos selvagens. Sua luta resultou no Wild Free-Roaming Horses and Burros Act de 1971, que pela primeira vez concedeu proteção legal federal a esses animais nos Estados Unidos.

Como vivem os Mustangs hoje

A população atual é estimada entre 60.000 e 80.000 animais distribuídos principalmente em Nevada, Wyoming, Montana, Colorado e Oregon. O Bureau of Land Management (BLM) é o órgão federal responsável pela gestão dessas populações, o que inclui controle de natalidade, adoções e, em alguns casos, transferência para instalações de custódia — os chamados off-range corrals.

Como é a estrutura social de uma manada de Mustangs?

Uma manada típica é composta por um garanhão dominante, de três a doze éguas e seus potros. O garanhão protege o grupo e patrulha o território, enquanto a égua mais velha frequentemente lidera o grupo nas decisões de movimento — para onde ir buscar água, quando se afastar de predadores, quais rotas tomar. Machos jovens expulsos pelo garanhão formam grupos de solteiros (bachelor bands) até que estejam prontos para conquistar suas próprias manadas.

A hierarquia dentro do grupo é negociada constantemente por meio de linguagem corporal: posição das orelhas, exposição dos dentes, postura do pescoço, ameaças com cascos. É uma comunicação sofisticada que garante a coesão do grupo com o mínimo de confronto físico.

O debate sobre a gestão das populações

Os Mustangs ocupam um espaço paradoxal: amados pelo imaginário popular, mas tecnicamente considerados espécie invasora por muitos cientistas e gestores de terra. O debate sobre como manejar suas populações é um dos mais acalorados da política ambiental americana.

De um lado, organizações de defesa argumentam que os cavalos são parte integrante da paisagem ocidental e que qualquer intervenção viola um vínculo histórico e cultural. Do outro, gestores ambientais e pecuaristas apontam que populações sem controle degradam pastagens e competem com espécies nativas como o berrendo (pronghorn) e a águia dourada.

O BLM mantém um programa de adoção que permite a cidadãos capturar e treinar Mustangs selvagens — um processo que pode durar meses e que tem fãs dedicados em todo o país. Cavalos adotados e treinados muitas vezes se revelam excepcionalmente inteligentes, resistentes e leais.

O Mustang como símbolo cultural

Poucos animais têm tanta presença simbólica quanto o Mustang. O carro esportivo mais famoso da Ford leva seu nome. A canção “Mustang Sally” é um clássico do soul americano. O filme Spirit: O Corcel Indomável (2002) e sua sequência (Spirit Indomável, 2021) apresentaram esses cavalos a uma nova geração. A série Heartland, transmitida há mais de uma década, tem resgates de Mustangs como trama recorrente.

Mas a presença mais poderosa talvez seja a do imaginário coletivo: a silhueta de um cavalo no topo de uma colina de pedra vermelha, ao entardecer, sem ninguém para direcioná-lo. É uma imagem que continua a mobilizar pessoas, a gerar campanhas de proteção, a inspirar artistas — e a lembrá-nos de que nem tudo no mundo precisa ser administrado.