Existe uma forma de montar que não obedece apenas às regras de uma competição. Que não visa o cronômetro nem o placar de um juiz. Que busca, acima de tudo, a harmonia perfeita entre humano e cavalo — uma conversa silenciosa expressa em movimentos que parecem impossíveis e, ao mesmo tempo, completamente naturais. Essa forma de montar tem um nome: equitação clássica. E tem uma raça que lhe é inseparável: o Lusitano.
A relação entre o lusitano e a equitação clássica não é coincidência nem marketing. É história — séculos de tradição codificada em textos, ensinada de geração a geração e preservada viva em escolas que resistiram às guerras, às revoluções e às mudanças de valor do mundo moderno.
O que é a equitação clássica e por que ela importa?
A equitação clássica é a tradição equestre desenvolvida na Europa renascentista com base nos escritos de Xenofonte (séc. IV a.C.), refinada nas academias italianas do século XVI e aperfeiçoada pelas escolas ibéricas ao longo dos séculos XVII e XVIII.
Seu princípio central é a leveza: o cavalo deve executar todos os movimentos sem resistência, sem tensão, respondendo a ajudas cada vez mais discretas até que a comunicação se torne quase telepática. O cavaleiro não força — convida. O cavalo não obedece por compulsão — colabora por entendimento.
Os movimentos característicos da equitação clássica — piaffe, passage, levade, croupade, capriole, courbette — são os mesmos que cavaleiros de guerra medievais desenvolveram para o combate montado. No contexto atual, são executados como arte equestre e como expressão máxima do treinamento.
A distinção da equitação clássica em relação ao dressage de competição moderno é importante: enquanto o dressage FEI busca padronização e pontuação comparativa, a equitação clássica busca a perfeição individual — o que é possível para este cavalo específico com este cavaleiro específico.
A Escola Portuguesa de Arte Equestre
A escola que mais fielmente representa a tradição clássica com o Lusitano é a Escola Portuguesa de Arte Equestre (EPAE), fundada em 1979 com sede no Palácio Nacional de Queluz, em Lisboa.
A escola mantém um grupo de cavaleiros e garanhões Lusitanos que realizam espetáculos regulares, perpetuando movimentos que existem há séculos. Os cavaleiros vestem trajes do século XVIII — tricórnio, farda bordada, calças de couro branco — e os cavalos usam arreios ricamente decorados em couro e metal. A apresentação completa é uma experiência estética total: música barroca ao vivo, iluminação natural do pátio do palácio, cavalos brancos que parecem voar sobre o picadeiro.
Garanhões da linha Alter Real: a EPAE trabalha principalmente com garanhões da sublinhagem Alter Real — criada na Herdade de Alter do Chão desde 1748, especificamente desenvolvida para a alta escola. Os cavalos Alter Real são reconhecidos pela conformação privilegiada para os airs e pela expressividade de apresentação.
A UNESCO reconhece as práticas de equitação clássica portuguesa como Patrimônio Cultural Imaterial — sinal do valor cultural que vai além do esporte.
Nuno Oliveira: o mestre que redefiniu a arte equestre
Nenhuma discussão sobre equitação clássica lusitana é completa sem o nome de Nuno Oliveira (1925–1989) — considerado por muitos o maior cavaleiro do século XX.
Oliveira dedicou sua vida ao estudo e à prática da equitação clássica, formando gerações de cavaleiros de todo o mundo que viajavam especificamente a Portugal para estudar com ele. Sua filosofia era radical em sua simplicidade: o cavalo tem razão. Se algo não funciona, o problema é do cavaleiro, não do cavalo.
Seus livros — Reflexões sobre a Arte Equestre, Sobre a Doma Clássica, Cavalos e Cavaleiros — são considerados textos fundamentais da equitação mundial, traduzidos para mais de dez idiomas. Cavaleiros de tradições tão distintas quanto o dressage competitivo alemão e o cowboy americano encontraram em Oliveira insights que transformaram sua forma de montar.
O legado de Oliveira vive em seus discípulos diretos — Bent Branderup (dinamarquês), Philippe Karl (francês), Bettina Drummond (americana) — e nos incontáveis cavaleiros que foram tocados por seus escritos sem nunca ter visto o mestre pessoalmente.
Os airs acima do solo: o que são e por que impressionam?
Os airs acima do solo são os movimentos em que o cavalo eleva parte ou todo o seu corpo do chão. São a expressão máxima do treinamento clássico — e executá-los com qualidade genuína é raro mesmo entre cavaleiros de alto nível.
Levade: o cavalo eleva a frente do chão, equilibrando-se sobre os membros posteriores profundamente flexionados, com o corpo a 35–45 graus do solo. É o fundamento de todos os outros airs — e o mais exigente em termos de força e equilíbrio do cavalo.
Croupade: o cavalo salta e contrai todos os membros sob o corpo, permanecendo paralelo ao solo no momento mais alto do voo.
Capriole: o movimento mais espetacular. O cavalo salta, atinge o ponto mais alto e lança os membros posteriores para trás em extensão completa — posição que, historicamente, servia para afastar inimigos do flanco do cavaleiro em combate.
Courbette: o cavalo na posição de levade avança em saltos sucessivos sobre os membros posteriores, sem tocar o chão com a frente.
O Lusitano tem conformação particularmente adequada para os airs: garupa musculosa, membros posteriores com ângulos favoráveis para o engajamento profundo e equilíbrio natural que outros cavalos precisam de muito mais treinamento para atingir.
A equitação clássica hoje: onde o Lusitano encontra seu lugar
A equitação clássica enfrenta um paradoxo no século XXI: nunca teve tantos praticantes no mundo todo — e nunca conviveu com tanta pressão para se adaptar aos critérios do dressage de competição moderno.
O dressage FEI contemporâneo favorece movimentos com grande amplitude e expressividade visual — qualidades que os Warmbloods de sangue quente produzem mais facilmente que os cavalos ibéricos. Isso criou uma tensão entre a tradição clássica, que valoriza coleção e harmonia genuína, e o dressage moderno, que frequentemente privilegia espetacularidade sobre sutileza.
A resposta de parte da comunidade equestre foi organizar-se em torno de federações e eventos dedicados à equitação clássica — como o Congresso de Equitação Clássica e iniciativas similares em vários países. Para o Lusitano, esse movimento é uma oportunidade. Em um ambiente que valoriza a tradição clássica, a raça não precisa adaptar-se — ela apenas precisa ser o que já é.
Quem visita Lisboa e assiste a uma apresentação da Escola Portuguesa de Arte Equestre entende, sem precisar de palavras, por que o Lusitano e a equitação clássica são inseparáveis. É uma experiência que não se explica. Se presencia.