Ter um Friesian é diferente de ter qualquer outro cavalo. Não apenas pela presença e pelo custo — mas pelos cuidados com o cavalo Friesian que são específicos da raça e que, se negligenciados, comprometem tanto a saúde do animal quanto o visual espetacular que o torna tão único. A crina, a pelagem negra, as franjas nas patas e o porte geral do Friesian demandam um protocolo de manejo que vai além do que a maioria das raças exige.

A boa notícia: uma vez que a rotina está estabelecida, o manejo do Friesian se torna natural — e o resultado de um animal bem cuidado é tão gratificante visualmente quanto funcionalmente.

Cuidados com a crina e a cauda do Friesian

A crina e a cauda do Friesian são características de raça e, por isso, nunca devem ser aparadas ou trançadas de forma permanente. O padrão do KFPS estabelece que esses elementos devem ser preservados ao natural — e criadores sérios não abrem mão desse princípio.

Condicionamento regular: crinas longas e densas embaraçam com facilidade. O uso de condicionadores específicos para crina equina — aplicados após cada banho e periodicamente entre banhos — é essencial para manter a textura sedosa e a ausência de nós. Produtos sem silicone são preferíveis: a silicone facilita o deslizamento mas torna difícil a manipulação para separar fios embaraçados.

Manta de crina (crest cover): uma manta leve que cobre o pescoço e protege a crina é altamente recomendada para Friesians que ficam em pasto ou paddock. Galinhas, arame, arbustos e o próprio atrito com outros cavalos podem quebrar e partir fios que levaram anos para crescer.

Técnica de desembaraço: nunca usar pente de dentes finos numa crina Friesian. O correto é desembaraçar com os dedos — trabalhando de baixo para cima, em seções, com produto condicionante aplicado. Para nós mais fechados, condicionador concentrado e paciência são os únicos instrumentos adequados.

Frequência de lavagem: a crina do Friesian não precisa ser lavada com a mesma frequência que o corpo. Excesso de lavagem pode secar os fios e torná-los quebradiços. Um banho completo de crina a cada 2–4 semanas é adequado na maioria dos casos, com hidrataçao leve entre os banhos.

Cuidados com a pelagem preta

A pelagem negra do Friesian é seu cartão de visita — e é também a parte mais desafiante do manejo visual da raça.

Escovação diária: a escovação regular remove poeira, suor seco e resíduos que opacificam a pelagem. Use escova de cerdas macias para o acabamento final — a escova dura remove a sujidade pesada, mas a cerdas finas são o que cria o brilho.

Proteção solar: a radiação UV é o principal inimigo da pelagem negra. Em ambientes muito ensolarados, o uso de mantas protetoras tipo fly sheet com proteção UV (UPF 50+) durante as horas de maior incidência solar reduz significativamente o fading. Em climas tropicais, essa medida é essencial para manter o preto profundo da pelagem.

Suplementação: a síntese adequada de melanina — o pigmento que produz o negro — depende de aminoácidos (especialmente tirosina e fenilalanina) e minerais (cobre, zinco). Uma ração base de qualidade cobre a maioria das necessidades, mas Friesians com tendência ao fading frequentemente se beneficiam de suplementação específica. Consulte um veterinário ou nutricionista equino antes de iniciar qualquer suplemento.

Shampoo específico: existem shampoos formulados para pelagens escuras que contêm agentes que intensificam a cor e removem os tons avermelhados causados pelo sol e pela oxidação. Usados periodicamente, fazem diferença perceptível no resultado visual da pelagem.

Manta de noite: em períodos de temperatura mais baixa, a manta de noite além de manter o calor corporal também protege a pelagem de poeira e resíduos de cama, reduzindo a frequência de banhos necessários.

Cuidados com as franjas (feathering)

As franjas nas patas — o feathering — são um dos elementos visuais mais marcantes do Friesian, mas também a área que exige atenção específica para prevenção de problemas de saúde.

Sarna das franjas (scratches / mud fever): a doença mais comum associada ao feathering. É uma infecção bacteriana (geralmente Dermatophilus congolensis ou estafilococos) que se desenvolve na pele úmida sob a pelagem densa das franjas. Os sintomas incluem crostas, descamação, vermelhidão e sensibilidade ao toque na região dos boletos e pasterns.

Prevenção: manter as patas secas após exercício em terreno molhado, lavar e secar completamente as franjas após banhos, inspecionar regularmente a pele sob a pelagem. Em períodos de muita chuva, considerar a tosquia temporária parcial das franjas para facilitar a secagem — uma decisão prática que os entusiastas da estética da raça relutam em tomar, mas que pode ser necessária em casos recorrentes.

Tratamento: quando a sarna das franjas se instala, o tratamento geralmente envolve limpeza cuidadosa das crostas, aplicação de antissépticos e, em casos mais graves, antibioticoterapia prescrita por veterinário. Não ignorar os primeiros sinais — a infecção progride rapidamente se não tratada.

Inspeção regular: uma inspeção semanal das franjas — verificando a pele sob o pelo, a condição das ranilhas e qualquer área de calor ou inchaço — permite identificar problemas no início, quando são mais fáceis de tratar.

Saúde geral do Friesian: o que a raça predispõe?

O Friesian tem algumas predisposições genéticas de saúde que todo proprietário deve conhecer.

Megaesôfago: o Friesian tem incidência mais alta que outras raças de megaesôfago — uma condição em que o esôfago perde a capacidade de contrair adequadamente, dificultando a deglutição. Os sinais incluem engasgos frequentes, nariz escorrendo durante ou após a alimentação e perda de peso inexplicada. O diagnóstico é feito por endoscopia. Não tem cura, mas o manejo alimentar adequado permite qualidade de vida razoável.

Aorta frágil: estudos documentam uma incidência aumentada de ruptura aórtica espontânea em Friesians — uma condição rara mas fatal. O mecanismo exato ainda está sendo estudado, mas há evidência genética de predisposição na raça. Garanhões em atividade física intensa são os mais afetados.

Retenção placentária em éguas: éguas Friesians têm incidência significativamente maior de retenção placentária pós-parto em comparação à média equina geral. É uma emergência veterinária que exige intervenção imediata. Propriedades que criam éguas Friesians devem ter protocolo estabelecido para monitoramento pós-parto.

Distúrbios linfáticos: o feathering está associado a um sistema linfático cutâneo mais desenvolvido nas extremidades, o que predispõe alguns Friesians a edemas crônicos nas patas — especialmente em animais mais velhos ou sedentários. Exercício regular e manejo das franjas são as principais medidas preventivas.

Conhecer essas predisposições não é motivo de alarmismo — é parte do cuidado informado que um proprietário consciente deve ter. Um veterinário familiar com a raça é um parceiro essencial para quem decide ter um Friesian.