Se existe um tema que divide opiniões em cocheiras, fóruns equestres e conversas entre criadores, esse tema é a alimentação. Todo mundo tem uma receita. Todo mundo já viu alguém fazer diferente. E quase todo mundo já cometeu ao menos um erro alimentar que custou uma ida ao veterinário. A boa notícia é que entender a alimentação do cavalo não exige um diploma — exige apenas conhecer como o sistema digestivo dele funciona.

A premissa é simples: o cavalo é um herbívoro de pastejo contínuo, com um trato gastrointestinal que evoluiu para receber pequenas quantidades de fibra de forma quase ininterrupta. Quando a alimentação ignora essa biologia, os problemas aparecem — cólicas, úlceras gástricas, laminite e problemas metabólicos estão entre as consequências mais comuns de uma dieta desequilibrada.

O que um cavalo realmente precisa comer

A dieta equina é dividida em dois grandes grupos: volumoso e concentrado. Entender o papel de cada um é o primeiro passo para não errar.

Volumoso é a categoria mais importante e inclui feno (feno de gramínea, feno de leguminosa como alfafa), pastagem fresca e forragens conservadas. O volumoso deve compor entre 60% e 80% da dieta — em termos práticos, um cavalo adulto de 500 kg precisa de pelo menos 7,5 a 10 kg de matéria seca em volumoso por dia (aproximadamente 1,5% do peso corporal).

Concentrado inclui rações comerciais, farelos, milho, aveia e suplementos energéticos. É a fração calórica da dieta, usada para complementar o volumoso quando a demanda energética supera o que o pasto e o feno fornecem. Cavalos de trabalho leve e lazer geralmente não precisam de concentrado — o volumoso é suficiente quando de boa qualidade.

Suplementos minerais completam a dieta onde o volumoso é deficiente. Um bloco de sal mineralizado à disposição do animal é o mínimo recomendado em qualquer manejo.

Quanto um cavalo come por dia?

A quantidade ideal varia com peso, raça, idade, nível de atividade e estado fisiológico do animal. Um parâmetro geral amplamente usado é:

  • Ingestão total: 1,5% a 2% do peso corporal em matéria seca por dia
  • Para um cavalo de 500 kg: entre 7,5 e 10 kg de matéria seca
  • Pastagem de boa qualidade pesa entre 15 e 20% de matéria seca — ou seja, um cavalo precisaria pastar em área com volume suficiente para ingerir equivalentemente

Cavalos em trabalho intenso, éguas em lactação ou animais em recuperação podem precisar de 2% a 2,5% do peso corporal. Cavalos obesos ou com síndrome metabólica equina precisam de controle mais rigoroso.

Uma regra prática: o cavalo não deve estar nem gordo nem magro. A condição corporal ideal fica entre 4 e 6 numa escala de 1 a 9, onde as costelas não aparecem à vista mas são palpáveis com leve pressão.

Quando e como dividir as refeições?

O estômago do cavalo é relativamente pequeno — cerca de 10 a 15 litros — e não tem capacidade de armazenar grandes volumes de alimento. O pH gástrico é ácido de forma contínua, ao contrário dos humanos, cujo ácido é liberado principalmente durante a digestão. Isso significa que um estômago vazio por muitas horas é um estômago que está sendo agredido pelo próprio suco gástrico.

Princípio fundamental: frações menores e mais frequentes são sempre melhores do que refeições grandes e espaçadas.

Para concentrado:

  • Dividir em no mínimo 2 refeições diárias (manhã e tarde)
  • Nunca oferecer mais de 2 a 2,5 kg de concentrado por refeição
  • Esperar pelo menos 30 minutos após exercício intenso antes de alimentar

Para volumoso:

  • Feno pode ser oferecido em duas a três porções por dia, ou em comedouros de liberação lenta para simular o pastejo contínuo
  • Pastagem livre é o ideal — quando disponível e de qualidade adequada

O que nunca dar a um cavalo?

Alguns alimentos são tóxicos para cavalos e precisam ser evitados com rigor:

Plantas tóxicas incluem lótus corniculado, azaléia, nogueira negra, cerejas silvestres, rododendros e uma lista extensa que varia por região. Verificar com um veterinário local quais espécies são comuns na sua área e garantir que não estejam na pastagem.

Alimentos impróprios:

  • Pão, doces e restos de comida humana — não têm valor nutricional e podem causar desequilíbrios digestivos
  • Batata e tomate crus — contêm solanina, que é tóxica para equinos
  • Avocado — tóxico para cavalos
  • Alimentos mofados ou fermentados de forma não controlada

Mudanças abruptas de dieta — seja de um feno para outro, do feno para a pastagem ou da pastagem seca para a fresca — são causas frequentes de cólica e de laminite. Toda transição deve ser feita ao longo de 7 a 14 dias.

A pastagem pode ser suficiente?

Sim — para cavalos com demanda energética baixa e pastagem de boa qualidade. Uma pastagem bem manejada, com gramíneas adequadas para equinos e livre de plantas tóxicas, pode suprir as necessidades nutricionais de cavalos de lazer sem trabalho intenso.

O problema ocorre quando a pastagem é escassa, de baixa qualidade, ou quando o cavalo tem acesso ilimitado a gramíneas de alto teor de frutanos (como azevém e braquiária em certas épocas do ano), aumentando o risco de laminite — uma inflamação dolorosa do casco com potencial devastador.

Monitorar a condição corporal do cavalo e ajustar a dieta conforme a estação e o nível de atividade é fundamental.

Sinais de que algo está errado na alimentação

O cavalo não fala — mas o corpo dele fala. Alguns sinais indicam que a dieta precisa ser revisada:

Perda de peso progressiva: pode indicar insuficiência calórica, parasitose, problemas dentários que dificultam a mastigação ou doença subjacente.

Ganho excessivo de peso: excesso calórico, pastagem muito rica ou sedentarismo — aumenta o risco de laminite e síndrome metabólica.

Fezes anormais: muito secas (indicam ingestão insuficiente de fibra ou água), muito moles (excesso de concentrado ou mudança de dieta) ou com grãos não digeridos (velocidade de passagem alta, problemas dentários).

Cólica recorrente: pode indicar padrão alimentar inadequado, consumo insuficiente de água ou manejo de pastagem problemático.

Pelagem opaca ou frágil: frequentemente ligada a deficiências de ômega-3, proteínas ou minerais específicos como zinco e cobre.

Sal mineral e suplementação: o que todo cavalo precisa

O sal é o único suplemento universalmente necessário para todos os cavalos, independentemente de dieta ou nível de atividade. O sódio é essencial para o equilíbrio eletrolítico, a função muscular e a ingestão adequada de água — e o cavalo não obtém sódio suficiente apenas pela pastagem ou pelo feno.

A forma mais prática de fornecer sal é o bloco de sal mineralizado: um bloco sólido que o cavalo lambe conforme a necessidade. Blocos de sal comum (branco) fornecem apenas sódio; blocos mineralizados (geralmente marrons ou cinzas) acrescentam fósforo, cálcio, cobre, zinco, manganês, cobalto e selênio. Para a maioria dos cavalos em manejo convencional, o bloco mineralizado é suficiente.

Quando suplementar além do bloco:

  • Cavalos com trabalho intenso perdem muito eletrólito pelo suor — podem precisar de suplementação adicional de eletrólitos em dias quentes ou após competições
  • Cavalos em pastagem pobre em minerais específicos (deficiências de zinco e cobre são comuns em certas regiões) se beneficiam de análise de solo e suplementação direcionada
  • Éguas gestantes e em lactação têm necessidades aumentadas de cálcio e fósforo — consultar veterinário para protocolo específico

O que não funciona bem é suplementar aleatoriamente: excesso de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) acumula no organismo e pode causar toxicidade. Suplementação deve ser baseada em necessidade real — identificada por análise da dieta, do solo ou do sangue.

Quando consultar um veterinário sobre a dieta?

A resposta prática: sempre que houver dúvida sobre um animal específico. Um veterinário equino ou um zootecnista especializado pode avaliar a condição corporal, solicitar exames sanguíneos e recomendar ajustes baseados no estado real do animal — não em fórmulas genéricas.

Situações que demandam avaliação especializada:

  • Cavalo com perda ou ganho de peso sem causa aparente
  • Histórico de laminite ou síndrome metabólica equina
  • Égua gestante ou em lactação
  • Potro em crescimento
  • Animal idoso (acima de 20 anos) com dificuldade de manutenção de peso

A alimentação é onde o cuidado começa — e onde a maioria dos problemas de saúde equina tem raiz. Acertar nela é acertar em tudo o mais.