Se você inverter o nome Red Rum, encontra a palavra “murder” em inglês — assassinato. Esse coincidência, notada pela imprensa britânica nos anos 1970, deu ao cavalo uma aura quase mítica que combinava estranhamente bem com o esporte que ele dominava: o Grand National, a corrida de steeplechase mais perigosa e imprevisível do mundo.

Red Rum venceu o Grand National três vezes — em 1973, 1974 e 1977. Ficou em segundo lugar nas duas edições intermediárias (1975 e 1976). Em 170 anos de história da prova, esse feito nunca foi repetido, e o consenso entre os especialistas é de que dificilmente será: a combinação de longevidade, consistência e capacidade de vencer especificamente em Aintree que Red Rum demonstrou é, do ponto de vista estatístico, um acidente da história equina.

O Grand National: por que é a corrida mais difícil do mundo?

Antes de entender Red Rum, é preciso entender Aintree. O Grand National cobre 6,9 quilômetros com 42 obstáculos, entre eles alguns dos mais desafiadores construídos para qualquer corrida no mundo.

O Becher’s Brook exige que o cavalo salte um obstáculo cuja face de aterrissagem é consideravelmente mais baixa do que a de decolagem, criando um ângulo de descida que pode desequilibrar animais não habituados. O Chair é o obstáculo mais alto da prova, com uma vala de água na face interna. O Canal Turn exige que o cavalo faça uma curva de 90 graus imediatamente após o salto — uma demanda de coordenação e desequilíbrio que elimina cavalos tecnicamente limitados.

Em provas normais de steeplechase, metade dos cavalos completam a corrida. No Grand National, a taxa de não-conclusão é historicamente mais alta, e quedas e lesões são parte do caráter brutal e controverso da prova. É nesse contexto que vencer uma vez é extraordinário. Vencer três vezes é sem precedentes.

A história improvável de Red Rum antes de Aintree

Red Rum nasceu em 1965 na Irlanda, filho de Quorum com Mared. Sua trajetória inicial no turfe foi absolutamente comum — ele correu em pequenas provas de plat (corridas planas, sem obstáculos) com resultados mediocres, depois foi transferido para o steeplechase sem qualquer sinal de que viria a ser diferente dos centenas de cavalos que tentam e falham no circuito britânico de obstáculos.

O que mudou foi o encontro com Ginger McCain, um mecânico e comerciante de carros de segunda mão de Southport que mantinha seus cavalos em instalações improvisadas atrás de seu estabelecimento comercial. McCain não era um treinador do establishment equestre britânico — trabalhava longe de Newmarket, longe das grandes estruturas, longe dos holofotes.

Quando Red Rum chegou a McCain em 1972, o cavalo apresentava um problema sério de laminite crônica — inflamação no tecido laminar dos cascos que causa dor constante e pode encerrar a carreira de qualquer animal. Os tratadores convencionais haviam recomendado que ele fosse descartado das competições.

Como a areia de Southport salvou Red Rum?

O método de McCain era, pela necessidade das instalações que possuía, diferente: ele treinava Red Rum diariamente na praia de Southport, em longos trotes e galopes na areia molhada da orla. A areia absorve o impacto de forma diferente do asfalto e mesmo da grama — é mais macia, mais irregular, exige mais equilíbrio e trabalho muscular por parte do animal, mas reduz dramaticamente o stress nas estruturas ósseas e ligamentosas dos membros.

Com o tempo, os veterinários que acompanhavam Red Rum notaram o que os clínicos ainda estudam: a água salgada, o exercício regular na areia e o manejo cuidadoso de Ginger McCain haviam estabilizado a condição dos cascos do cavalo de uma forma que os tratamentos convencionais não haviam conseguido. Red Rum não estava curado — estava gerenciado, com uma qualidade de vida e uma capacidade atlética que desafiavam o prognóstico original.

As três vitórias no Grand National: 1973, 1974 e 1977

1973 foi a primeira. Red Rum correu o Grand National como um azarão — longe dos favoritos da prova, com um esquema de pesos que o sobrecarregava em relação ao que os treinadores consideravam ideal para aquela distância. Ele venceu em uma das viradas mais dramáticas da história da prova: com Crisp, o favorito australiano, abrindo uma vantagem enorme no penúltimo obstáculo, Red Rum o alcançou metro a metro na reta final e cruzou a linha de chegada em primeiro, quebrando o recorde da prova no mesmo ato.

1974 foi mais tranquila — ele simplesmente foi o melhor, sem o drama do ano anterior, com uma vitória que convenceu até os céticos de que 1973 não havia sido sorte.

1975 e 1976 ficaram em segundo lugar — uma daquelas circunstâncias esportivas onde o segundo colocado também é extraordinário mas recebe uma fração da atenção.

1977, com 12 anos de idade, Red Rum voltou a Aintree e conquistou o terceiro título. Com 12 anos, em uma prova que tributa física e mentalmente da forma que o Grand National tributa, ele não apenas completou — venceu. A multidão em Aintree recebeu essa vitória com um nível de emoção que os veteranos da prova comparam ao de um evento histórico, não esportivo.

Por que o Grand National exige um tipo específico de cavalo?

Nem todo grande saltador prospera em Aintree. A prova exige uma combinação de qualidades que vai além da capacidade técnica de saltar obstáculos altos:

Resistência ao longo curso — 6,9 quilômetros é uma distância que elimina cavalos construídos apenas para provas de 3 a 4 quilômetros.

Habilidade em terreno variável — Aintree tem diferentes tipos de solo ao longo do percurso, e o cavalo que não consegue se adaptar rapidamente perde tempo e energia em reajustes.

Temperamento em multidão — o Grand National tem uma das maiores audiências presenciais do calendário equestre britânico, com dezenas de milhares de espectadores muito próximos da pista. Cavalos sensíveis ao ambiente têm desempenho prejudicado.

Capacidade de ler o terreno após obstáculos — especialmente no Becher’s Brook e no Canal Turn, onde a ação imediatamente após o salto é tão crítica quanto o salto em si.

Red Rum tinha todas essas qualidades em combinação — o que explica por que ele podia ser mais modesto em outras provas e absolutamente dominante em Aintree especificamente.

O legado de Red Rum após a aposentadoria

Red Rum se aposentou das corridas em 1978, com 13 anos. Ginger McCain o manteve em Southport, onde o cavalo passou mais de uma década como celebridade local e nacional. Ele abria festivais, participava de inaugurações, aparecia em programas de televisão. No Reino Unido dos anos 1980, Red Rum era um nome reconhecido por pessoas que nunca haviam assistido a uma corrida de steeplechase na vida.

Quando morreu em outubro de 1995, com 30 anos, Red Rum foi enterrado na linha de chegada de Aintree — o lugar que havia definido sua existência. Uma placa marca o local até hoje, e o hipódromo de Aintree mantém uma estátua em sua homenagem na área de apresentação dos cavalos.

Ginger McCain, o treinador improvável de Southport, treinou cavalos por mais duas décadas após a aposentadoria de Red Rum — e voltou a vencer o Grand National em 2004, com Amberleigh House. Mas em todas as entrevistas do resto de sua vida, ele voltava sempre ao mesmo ponto: Red Rum havia sido diferente. Não apenas pelo que havia feito, mas pela forma como havia feito — com uma consistência serena que, segundo McCain, parecia que o cavalo sabia exatamente o que Aintree exigia dele.