Existem corredores humanos que dominam uma temporada. Raramente surgem atletas que dominam um ciclo completo de quatro anos. Winx dominou quase cinco — sem uma única derrota.
Entre setembro de 2015 e abril de 2019, a Winx égua australiana venceu 33 corridas consecutivas, um recorde absoluto no turfe australiano e um dos maiores feitos de consistência em qualquer esporte equestre do mundo. Ela não venceu corridas pequenas: venceu o Cox Plate, a prova mais prestigiada da Austrália, quatro vezes seguidas. Foi eleita o melhor cavalo de corrida do mundo por quatro anos consecutivos. E quando se aposentou, o fez em plena forma competitiva — uma decisão de seus proprietários que, no contexto do turfe, é quase revolucionária.
A origem: de potro comum a fenômeno nacional
Winx nasceu em 14 de agosto de 2011 na Austrália, filha de Street Cry com Vegas Showgirl. Sua pedigree era respeitável, mas não extraordinária — o tipo de perfil que produz boas corredoras, não necessariamente históricas. Seus dois primeiros anos de corrida foram promissores, mas sem o domínio que viria a seguir: ela venceu com regularidade, mas perdeu corridas, ficou fora do pódio, mostrou as inconsistências normais de uma jovem puro-sangue ainda sendo desenvolvida.
O que mudou foi a combinação de maturidade física e a parceria com o treinador Chris Waller e o jóquei Hugh Bowman. Waller, um neozelandês radicado na Austrália conhecida por sua paciência no desenvolvimento de cavalos, calibrou o programa de competição de Winx de uma forma que evitava sobrecarregá-la nas temporadas de desenvolvimento. Bowman, por sua vez, construiu com a égua uma comunicação que os observadores comparam ao que Edward Gal tinha com Totilas no adestramento — uma sintonia que tornava as decisões de corrida quase invisíveis.
O Cox Plate: quatro vitórias em quatro anos
O Cox Plate, disputado no hipódromo de Moonee Valley em Melbourne, é considerado a prova mais difícil da Austrália para cavalos de três anos ou mais. Seu formato — curvas fechadas em um hipódromo menor, que exige táticas diferentes dos hipódromos abertos onde a maioria das provas de topo é disputada — torna a vitória repetida particularmente difícil, mesmo para cavalos de alto nível.
Winx venceu em 2015, 2016, 2017 e 2018. Em cada edição, ela encarou concorrência diferente, em condições de pista diferentes, com diferentes estratégias de corrida dos adversários. Em cada edição, ela cruzou a linha de chegada em primeiro.
A vitória de 2018 foi particularmente significativa: ela igualou o recorde de vitórias consecutivas da égua Kingston Town (nos anos 1980) e depois o ultrapassou. Ao cruzar a linha de chegada pela quarta vez em Moonee Valley, Winx havia se tornado a cavalo com mais vitórias no Cox Plate da história da prova.
O que tornava Winx tão difícil de bater?
Os analistas do turfe australiano identificaram duas características físicas que distinguiam Winx de suas contemporâneas: um comprimento de passada excepcionalmente longo, que criava vantagem mecânica em retas, e uma capacidade de recuperação cardíaca acima da média, documentada em exames pós-corrida que mostravam sua frequência cardíaca retornando a valores de repouso muito mais rapidamente do que a maioria dos puro-sangues.
Mas além da fisiologia, havia um elemento tático: Winx competia com uma reserva. Bowman raramente a utilizava em esforço máximo nos estágios intermediários da corrida, preservando para o sprint final uma energia que os adversários frequentemente não tinham mais. No turfe, isso é chamado de “manter na mão” — e Winx respondia a esse manejo de forma que poucos cavalos conseguem.
O mundo reconhece: quatro anos como melhor cavalo do planeta
O título de melhor cavalo de corrida do mundo é atribuído anualmente pelo Longines World’s Best Racehorse Rankings, um sistema que compila resultados de provas de topo ao redor do globo e atribui ratings de desempenho comparável. É o sistema mais reconhecido para comparar cavalos que correram em diferentes países e diferentes tipos de prova.
Winx liderou o ranking em 2016, 2017, 2018 e 2019 — uma sequência de quatro anos que não havia sido vista na era moderna do turfe internacional. Esse reconhecimento é especialmente significativo porque o turfe australiano, embora seja altamente competitivo internacionalmente, tem menos visibilidade global do que os circuitos europeus e americanos. Para um cavalo do Hemisfério Sul ser eleito o melhor do mundo por quatro anos seguidos é um resultado contra os preconceitos estruturais do sistema de avaliação.
Ela nunca correu na Europa ou na América do Norte — seus proprietários decidiram mantê-la na Austrália durante toda a carreira. Alguns críticos usaram isso como argumento contra a extensão de sua dominância: ela não havia enfrentado os melhores do Hemisfério Norte em suas pistas. A resposta de seus defensores é sempre a mesma: os ratings comparativos a colocavam acima de qualquer concorrente do mundo em cada um dos quatro anos.
Por que Winx era diferente das outras grandes éguas da história?
O turfe tem uma dinâmica de gênero peculiar: as grandes éguas são celebradas, mas raramente colocadas em comparação direta com os grandes garanhões. No sistema de pesos das corridas, as éguas geralmente carregam menos do que os machos — o que, para alguns, invalida comparações diretas. E historicamente, as melhores éguas do turfe tendiam a competir principalmente contra outras fêmeas em provas específicas.
Winx destruiu essa lógica. Ela não apenas competia com machos regularmente — ela os vencia regularmente, carregando os mesmos pesos em provas abertas. No Cox Plate, não há separação de gênero: ela venceu contra os melhores cavalos australianos de qualquer sexo. Essa disposição de competir — e dominar — em condições igualitárias é o que a coloca em uma categoria diferente das grandes éguas anteriores.
A aposentadoria em abril de 2019: uma escolha e uma declaração
Quando os proprietários de Winx anunciaram sua aposentadoria em março de 2019, antes de sua última corrida, o turfe australiano teve uma reação que raramente acontece nesse esporte: alívio misturado com gratidão.
No turfe, cavalos raramente se aposentam “cedo”. A pressão comercial para continuar competindo — tanto pelas premiações quanto pelo valor das aparições públicas — mantém animais em atividade até os limites da saúde ou além. Winx foi aposentada aos sete anos, ainda em plena forma, porque seus proprietários decidiram que o valor simbólico de encerrar uma carreira invicta superava qualquer benefício de continuar.
Sua última corrida, o Longines Queen Elizabeth Stakes no hipódromo de Randwick em abril de 2019, foi vencida com conforto. A ovação da multidão durou mais de dez minutos.
O que aconteceu com Winx depois das corridas?
Winx foi enviada para o haras Coolmore Australia, onde se tornou égua reprodutora de alto valor. Seus primeiros filhos chegaram às pistas a partir de 2022, e o turfe australiano acompanha cada um deles com a atenção devotada a possíveis herdeiros de uma lenda. Nenhum deles, ainda, mostrou os sinais da mãe. Mas é cedo — e o turfe é paciente quando se trata de esperar pelo próximo impossível.