Existem provas esportivas que transcendem a competição e se tornam mitologia. No mundo do enduro equestre, há uma prova que ocupa esse lugar com autoridade inquestionável: a Tevis Cup. Cem milhas — 160 quilômetros — pelo coração das montanhas da Serra Nevada californiana, em um único dia, sem opção de pausa além dos vet gates obrigatórios. Com uma taxa de conclusão que raramente ultrapassa 50%. Com uma história que remonta a 1955 e uma lista de vencedores que inclui lendas do esporte equestre mundial.
Para quem está no enduro, terminar o Tevis Cup é uma ambição de carreira. Para muitos, é o objetivo de uma vida.
O que é o Tevis Cup?
O Tevis Cup — oficialmente chamado de Western States Trail Ride — é uma prova de enduro equestre de 100 milhas (aproximadamente 160 km) realizada anualmente na Califórnia, Estados Unidos, geralmente no final de julho ou início de agosto.
O percurso segue o Western States Trail, que vai de Robie Park (próximo a Truckee, na Sierra Nevada) até Auburn. O trajeto atravessa três condados, sobe e desce montanhas com ganho de altitude acumulado de mais de 5.600 metros — quase dois terços da altitude do Monte Everest — e passa por terrenos que incluem neve em alguns anos, desertos rochosos, bosques densos e descidas que colocam joelhos e tornozelos dos cavaleiros à prova.
O limite de tempo é 24 horas. Cavaleiros que não completam o percurso dentro desse limite não recebem o cobiçado emblema Tevis Cup.
E não completar não é incomum. Em edições típicas, entre 40% e 60% dos participantes são eliminados — por problemas veterinários, lesões, cavaleiros que optam por retirar seus animais, ou simplesmente por não conseguir completar dentro do tempo.
Como surgiu o Tevis Cup?
A história começa em 1955 com Wendell Robie — advogado, empresário e apaixonado por cavalos — que queria demonstrar que cavalos modernos ainda eram capazes de cumprir as marchas que a cavalaria havia feito sobre as mesmas trilhas décadas antes.
Robie completou o percurso em um único dia em agosto de 1955. No ano seguinte, organizou a primeira competição formal — a Western States Trail Ride — com quatro participantes. O troféu foi um copo de prata doado pela família Tevis de Auburn, e o nome ficou.
Em 1959, a prova recebeu o patrocínio permanente da Tevis Cup Foundation. Em 1961, participaram 57 cavaleiros. Nas décadas seguintes, o Tevis Cup cresceu para centenas de participantes e se tornou referência mundial para o que viria a ser o enduro equestre moderno.
A filosofia de Robie está gravada na identidade da prova: não é sobre ser o mais rápido. É sobre chegar com um cavalo que ainda está bem. O regulamento do Tevis Cup estabelece que o cavalo deve passar no exame veterinário final com a mesma aprovação que qualquer vet gate da prova — e eliminações por condição veterinária são tão comuns na chegada quanto nos checkpoints intermediários.
Qual é o percurso do Tevis Cup?
O percurso do Tevis Cup é, por si só, uma lista de obstáculos que poucos terrenos no mundo conseguiriam replicar.
Sierra Nevada: os primeiros quilômetros saem de Robie Park a cerca de 2.400 metros de altitude e sobem ainda mais antes de começar a descida. No início de verão, neve pode cobrir partes do percurso nos anos com inverno mais intenso.
Canyons: o percurso desce para os famosos canyons californianos — Deadwood Canyon, El Dorado Canyon, American River Canyon. As descidas são íngremes, o terreno é pedregoso e as temperaturas nos vales chegam a 40°C no pico do dia de julho.
Devil’s Thumb: uma subida íngreme de mais de 600 metros verticais em pouco mais de 3 km. Considerada o ponto de maior dificuldade da prova — cavaleiros chegam ao topo com cavalos ofegantes e pernas tremendo.
Francisco’s: um trecho noturno na maioria das edições, onde cavaleiros e cavalos percorrem trilhas estreitas nas bordas de cânions. A largada é ao amanhecer, mas cavaleiros que gerenciam bem o tempo chegam à metade final do percurso quando o sol se põe.
No Hands Bridge: a penúltima marca simbólica da prova — uma ponte histórica que cruza o American River nos quilômetros finais. Cavaleiros que chegam ao No Hands Bridge sabem que a linha de chegada em Auburn está perto.
Robie Point: a última subida antes de Auburn — uma elevação que cavaleiros exaustos sobem ao lado de seus cavalos, a pé, com as pernas já cedendo. Em Robie Point, muitas histórias de Tevis Cup terminam — e muitas outras chegam ao clímax.
Qual é a premiação do Tevis Cup?
O Tevis Cup não oferece prêmios financeiros expressivos. A premiação mais cobiçada é uma fivela de cinto dourada — entregue a todos os cavaleiros que completam o percurso dentro do limite de 24 horas com o cavalo aprovado pelos veterinários.
A fivela do Tevis Cup é, no mundo do enduro equestre, equivalente a uma medalha olímpica em prestígio simbólico. Cavaleiros que a têm não costumam guardá-la. Usam-na.
O primeiro colocado recebe o troféu Tevis Cup — o copo de prata original que deu nome à prova. Um troféu itinerante que permanece um ano com o vencedor antes de retornar para a próxima edição.
O Haggin Cup é o prêmio concedido ao cavalo em melhor condição veterinária entre os dez primeiros colocados — o equivalente ao best condition das provas FEI. Cavaleiros competitivos geralmente preferem o Haggin Cup ao troféu de primeiro lugar, pois representa a gestão perfeita de um cavalo ao longo de 160 km impossíveis.
Quem são os grandes nomes do Tevis Cup?
Gordo: o cavalo mais vitorioso da história do Tevis Cup. Um Árabe castanho que completou a prova 17 vezes entre 1956 e 1970, incluindo vários anos consecutivos. Gordo e seu cavaleiro Drucilla Barner são parte da mitologia fundadora do esporte.
Becky Hart: três vezes campeã mundial de enduro equestre (1986, 1988, 1990), Hart é uma das figuras mais respeitadas do esporte. Seu cavalo Rio Grande completou mais de 50.000 km de competição ao longo da carreira.
Valerie Kanavy: duas vezes campeã mundial, representando os Estados Unidos. Começou no enduro pelo Tevis Cup e construiu uma carreira internacional a partir dessa base.
Ramzi Al Dhaher: cavaleiro dos Emirados Árabes Unidos que dominou o circuito internacional nas décadas de 2000 e 2010. A influência dos times do Oriente Médio — com os recursos e os cavalos Árabes de pedigree que trouxeram para o esporte — transformou a competição internacional.
O Tevis Cup é para todos?
A resposta honesta é: não, diretamente. Mas indiretamente, é um objetivo que qualquer cavaleiro de enduro pode aspirar — desde que construa a experiência correta.
Cavaleiros que querem tentar o Tevis Cup geralmente constroem uma trajetória de 3 a 5 anos: provas nacionais de 50 km, depois 80 km, depois provas internacionais de 100 km ou mais. O Tevis Cup exige qualificações específicas — o cavalo precisa ter completado provas de 50 milhas antes de ser aceito.
O custo também é um fator. Entre inscrição, viagem, hospedagem, suporte de equipe e os inevitáveis custos veterinários, uma edição do Tevis Cup representa um investimento significativo.
Mas para quem chega à linha de chegada em Auburn antes de completar 24 horas — com o cavalo aprovado, a fivela de ouro no bolso e o sol nascendo sobre as montanhas da California — nenhum custo parece desproporcional.